VIDA DE BORDADEIRA

O POTE MÁGICO DAS SOBRAS DE LINHAS

Eu guardo todos os restos de linha dos meus bordados. E dos bordados das minhas alunas quando elas deixam esses restos aqui no atelier da Bordadologia.

Estou há dias tentando lembrar quem me ensinou isso. Mas é um desses hábitos que está tão enraizado que é impossível recordar como começou (quem sabe foi a queridíssima Chirley Maria Ferreira que me deu a dica).

Desde que comecei a bordar, há cinco anos, guardo os pequenos pedacinhos de linha que vão sobrando a cada trabalho… minha coleção tá grandinha já…

Uma das razões que me faz seguir com esse gesto é a preocupação com o meio ambiente: não transformar em lixo algo que pode ser reaproveitado. Grande parte das linhas que uso é produzida industrialmente, gerando resíduos e impacto ambiental, então o mínimo que posso fazer é poupar a natureza dos restinhos que não vou mais usar.

Outra razão, bem particular minha, é apego mesmo: as cores são tão bonitas, é difícil descartar um resíduo tão colorido, ainda mais quando vão juntando restos de mais de um bordado e as cores vão se misturando sem lógica, formando novas combinações que não foram pensadas… (é um pouco viagem de artista esse papo? hahaha)

Finalmente, temos a razão velha conhecida de pessoas criativas, artistas e artesãos: “um dia vou fazer alguma coisa com isso”. Estamos sempre guardando restos das coisas, materiais que ninguém quis, objetos sem uso, coisas velhas: tudo parece tão interessante que seria um enorme desperdício artístico não tentar aproveitar… Mas eu ainda não fiz nada, estou apenas juntando cada dia mais e mais um pouco.

Já a Priscila Soares, da AtoBordado, fez (isso não é uma publi, é só admiração mesmo)! Quem compra seus produtos bordados recebe com eles etiquetas incríveis, confeccionadas pela Priscila justamente com os restos de linha de suas produções. Amei  tanto essa ideia que pedi a ela que me contasse porque ela guarda os seus restos de linha, e como ela criou essas etiquetas:

“Logo que comecei a bordar, notei que a “fusão de cores” das linhas entrelaçadas remetia, por si só, a uma estética artística de possíveis e infinitas possibilidades de interpretação! Sentimentos, emoções, pensamentos, ideias… tudo podia encontrar representação naquele emaranhado de linhas e cores: foi quando tive a inspiração de usar as sobras de linhas para dar vida e arte aos meus cartões de visita e etiquetas, que também faço à mão. ♡

Os montinhos de cores são os que aparecem na hora; não os escolho necessariamente. Recorro ao meu “pote mágico de sobras de linhas” e deixo a mistura se dar no momento de criar os cartões.

A reação dos clientes que o recebem em mãos é sempre a mesma! ♡ Falam do capricho, do cuidado e alguns têm até dó de levar a cartão: só fotografam! Haha… Também já ouvi de clientes que só o cartãozinho, em si, é uma pequena obra de arte! ♡”

Priscila, com certeza suas etiquetas são obras de arte! Deve ser uma sensação muito bacana receber seus produtos e com eles essa outra criação! Eu daqui fico só com aquela pontinha de inveja, querendo ter uma ideia assim tão boa….

E você, bordadóloga, guarda seus restinhos de linha também? Já pensou no que vai fazer com eles?

  Em tempo: fui perguntar para essa minha amiga, que cito lá no começo do texto, se foi ela mesmo quem me ensinou a guardar as linhas. Ela também não lembra, mas durante a conversa (via áudios de whatsapp), ela foi mexer nas suas linhas guardadas e disse:

“isso que você falou, de lembrar, eu puxei ali e vi um fio, que eu fiz uma vez um poncho, amarelo cinza e bege, cru assim mais ou menos, tem um tempão… e tem resto dele ali…  vou procurar a foto dele lá no meu blog pra ver quanto tempo tem esse negócio”.

Sem mais ♡

Lísia Maria/Bordadologia – maio de 2019

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BORDAR É

BORDAR É

Bordar é passar dias bordando apenas mentalmente – até se ter tempo de pegar nas agulhas de verdade.

Bordar é ter a chance de dizer algo, sem precisar falar.

Bordar é um jeito de demostrar amor, sem precisar de gestos grandiosos.

Bordar é perder a noção da hora, tanto faz se bordando com o relógio por perto ou não.

Bordar é passar três horas na mesma posição sem perceber.

Bordar é ter paciência de repetir um ponto mil vezes, e mais mil vezes.

Bordar é ter a paciência de esperar o desenho nascer diante dos seus olhos, a partir de um emaranhado de linhas.

Bordar é ficar entusiasmada quando um projeto começa, e feliz quando ele termina. Ou aliviada.

Bordar é ser detalhista.

Bordar é fazer uma gambiarra de vez em quando, se ninguém estiver olhando.

Bordar é perder agulhas pela casa e espetar, sem querer, os outros moradores.

Bordar é nunca ficar entediada por não ter nada para fazer.

Bordar é ficar bem na sua própria companhia.

Bordar é descobrir, todos os dias, novas formas de fazer o que já se sabe.

Bordar é planejar um projeto, e na hora de fazê-lo, ter novas ideias e mudar quase tudo.

Bordar é passar longos minutos decidindo entre dois tons quase iguais de uma cor.

Bordar é ficar horas nas lojas de linha.

Bordar é desfazer pontos.

Bordar é desmanchar todos pontos e recomeçar do zero.

Bordar é ser surpreendida por um resultado melhor do que o que você queria.

Bordar é perceber quando um projeto está além dos seus limites naquele momento.

Bordar é fazer algo com suas próprias mãos.

Bordar é conectar-se com outras mulheres através dos tempos e sem limites geográficos.

Bordar é ter algo a ensinar para alguém.

Bordar é encantar as pessoas.

Bordar é algo que causa um grande prazer – mas também um grande cansaço.

Bordar é algo que não consigo deixar de fazer.

Bordar é sonhar acordada.

 

Lísia Maria/Bordadologia. Abril de 2019.

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