EDITORIAL

BORDAR É

BORDAR É

Bordar é passar dias bordando apenas mentalmente – até se ter tempo de pegar nas agulhas de verdade.

Bordar é ter a chance de dizer algo, sem precisar falar.

Bordar é um jeito de demostrar amor, sem precisar de gestos grandiosos.

Bordar é perder a noção da hora, tanto faz se bordando com o relógio por perto ou não.

Bordar é passar três horas na mesma posição sem perceber.

Bordar é ter paciência de repetir um ponto mil vezes, e mais mil vezes.

Bordar é ter a paciência de esperar o desenho nascer diante dos seus olhos, a partir de um emaranhado de linhas.

Bordar é ficar entusiasmada quando um projeto começa, e feliz quando ele termina. Ou aliviada.

Bordar é ser detalhista.

Bordar é fazer uma gambiarra de vez em quando, se ninguém estiver olhando.

Bordar é perder agulhas pela casa e espetar, sem querer, os outros moradores.

Bordar é nunca ficar entediada por não ter nada para fazer.

Bordar é ficar bem na sua própria companhia.

Bordar é descobrir, todos os dias, novas formas de fazer o que já se sabe.

Bordar é planejar um projeto, e na hora de fazê-lo, ter novas ideias e mudar quase tudo.

Bordar é passar longos minutos decidindo entre dois tons quase iguais de uma cor.

Bordar é ficar horas nas lojas de linha.

Bordar é desfazer pontos.

Bordar é desmanchar todos pontos e recomeçar do zero.

Bordar é ser surpreendida por um resultado melhor do que o que você queria.

Bordar é perceber quando um projeto está além dos seus limites naquele momento.

Bordar é fazer algo com suas próprias mãos.

Bordar é conectar-se com outras mulheres através dos tempos e sem limites geográficos.

Bordar é ter algo a ensinar para alguém.

Bordar é encantar as pessoas.

Bordar é algo que causa um grande prazer – mas também um grande cansaço.

Bordar é algo que não consigo deixar de fazer.

Bordar é sonhar acordada.

 

Lísia Maria/Bordadologia. Abril de 2019.

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