EDITORIAL

EU AMO CARNAVAL

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Eu amo o Carnaval.

Muitas pessoas não gostam, e eu acho que é como pequi ou horário de verão: tem gente que adora e tem gente que detesta, e segue o baile.

Mas nós, que amamos o Carnaval, encontramos todos os anos motivos para amar cada vez mais, e nos entregamos nesses dias a um exagero que só pode ser justificado pela extrema felicidade que ele nos causa.

Minhas memórias e sentimentos sobre o Carnaval estão ligadas a duas coisas: a primeira, menos importante neste texto, é o passe livre que se ganha para sermos imprevisíveis, surpreendentes e pouco ajuizados; a segunda, da qual falaremos, é a camada de brilhos e farfalhar de tecidos que cobre toda a atmosfera carnavalesca.

Quando somos crianças não entendemos porque, de repente, somos convidadas a vestir fantasias que brilham, farfalham e pinicam; e quem foi criada como menina ainda ganhava uma preciosa autorização para usar maquiagem.

Assim, prontas, éramos conduzidas a um salão de festas do prédio ou quadra da escola, onde outras crianças – igualmente desinformadas – corriam desgovernadas e felizes com todo aquele confete e serpentina jogados pelo chão, ao som de músicas do tempo dos nossos avós, que conhecíamos mais ou menos porque eram as mesmas todos os anos.

Bom, isso se você foi criança no Brasil dos anos 80. Pessoas de gerações anteriores tiveram a sorte de viver uma festa com mais significado. Mas esse Carnaval planejado pelos adultos e vivido por nós é uma lembrança bem gostosa do poder dos paetês e purpurinas.

Outra memória da minha infância é passar férias na casa da minha avó que costurava,  profissionalmente e por amor: na sua casa havia muita roupa que ela já não usava mais, mas guardava porque ela mesma tinha costurado.

Ela tinha também fantasias de carnaval antigas, dela e da minha tia (sua única filha menina). Se eu fechar meus olhos, consigo ver na minha frente uma fantasia de colombina, amassada e manchada de suor, mas que preservava o bordado de paetês pretos e miçangas prateadas sobre o tule branco. Também tinha um avental de cetim amarelo – fantasia de camponesa?-, com flores bordadas em cores bem vivas, de paetês e miçangas.

O bordado dessas peças tinha um brilho bem específico, assim como um peso (das miçangas feitas de vidro) peculiar e, mais único ainda, um som, que se espalhava quando pulávamos quintal afora vestidas com essas fantasias velhas.

Hiato.

Nos anos 90 e metade dos 2000 meu Carnaval era reduzido a acompanhar os desfiles de Escola de Samba do Rio de Janeiro e São Paulo, nos quais virei até especialista no estilo de cada carnavalesco. Ficava em casa mesmo porque Belo Horizonte virava um deserto, era meio perigoso sair na cidade vazia. Já uma outra tribo aproveitava o feriado com mais dias para acampar no mato ou ir para a praia. Eu viajava em frente à TV mesmo, hipnotizada pelas fantasias e alegorias das Escolas, atravessava a noite, cochilava no sofá e acordava com o dia raiando na minha janela e na Marquês de Sapucaí.

Então aconteceu um milagre e o Carnaval de rua foi ressuscitado.

Daí nós, que havíamos ficado uma década e meia confinados em casa ou no mato, de repente tínhamos um destino perfeito: a rua. A rua cheia de outras pessoas ensandecidas com tanta liberdade repentina, desacreditando que, subitamente, alguém teve essa maravilhosa ideia de brincar de novo o Carnaval de sob o sol, a chuva, a lua e o sereno da madrugada.

Junto com essa explosão vieram AS FANTASIAS. Ah, de novo aquela sensação do tecido sintético fazendo sua pele coçar, os adereços que escorregam a toda hora da cabeça, e uma novidade inexistente quando éramos crianças: o onipresente glitter, que de esquina em esquina alguém sopra na sua cara, ou você sopra na cara de alguém (já aprendemos que precisa ser do tipo biodegradável).

Para mim, esse revival teve um gosto especial: fazer meus próprios arranjos de cabeça – no começo ficavam meio grosseiros, mas eram bem simpáticos e divertidos. Aos poucos fui aprendendo e refinando a técnica e as ideias, e me apaixonei perdidamente por esse item do figurino carnavalesco – a ponto de ficar com uma leve preguicinha do resto da fantasia, que sempre termino resolvendo mais no improviso.

Mas as cabeças… são a minha piração! É delicioso fuçar e descobrir novos jeitos de confeccionar, temas para explorar e depois gastar horas mergulhada em paetês, emborrachados coloridos, flores, plumas e outras coisas mais diferentes que acabam grudadas em um arquinho novo. E, mais delicioso ainda, sair produzida nos blocos usando criações minhas.

Quem já pôde sentir/vestir uma fantasia/adereço feito à mão, a sensação é inesquecível. Hoje nosso tempo escasso dificulta muito que a gente produza uma peça assim, mas, para quem tem essa oportunidade, é um trabalho que vale a pena.

(Tem também o Carnaval das fantasias prontas, com brilhos aplicados industrialmente e personagens parecidos. É muito bacana também, especialmente porque é um produto mais acessível, que permite que mais pessoas comprem e brinquem e se divirtam).

Para mim o Carnaval é uma felicidade visual: tudo é colorido e tudo brilha.

Espero que os eu Carnaval esse ano seja o máximo: cheio de cor e brilho e bagunça na rua, se esse for o seu desejo; ou cheio de descanso e sossego se é o que você prefere.

O meu vai ser brilhante! ;)

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FUTURO EM CHAMAS

“Um povo que não conhece sua História está condenado a repetí-la”

Não conhecemos o autor dessa frase, mas ela é constantemente citada pelo escritor Eduardo Bueno em seus vídeos sobre História Brasileira.

Estamos absolutamente tristes com o incêndio que destruiu quase totalmente o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Seu acervo era riquíssimo para várias áreas da pesquisa científica – História, Biologia, Astronomia, Artes Visuais, Antropologia, Sociologia – e o palácio onde funcionava era um documento vivo do Brasil Império. A PERDA É IRRECUPERÁVEL, não importa o quanto governantes desgovernados digam o contrário.

Não bastasse essa tragédia em si, o que nos desespera é observar o quanto todas as instituições culturais públicas do nosso país estão sob a mesma ameaça. Embora os museus privados ajudem imensamente neste cenário de absurdo descaso com a produção e memória da arte e cultura brasileiras, é imprescindível que existam acervos públicos, e políticas para mantê-los a salvo dos desastres físicos e da ruína institucional.

A área da Cultura no Brasil pede socorro basicamente desde que foi criada.

Um país sem capital cultural e memória está condenado à barbarie teleguiada. A frase é nossa, a decepção é nossa, o medo do futuro é nosso.

Agradecemos pela atenção dispensada a esse pequeno desabafo. BORDADOLOGIA torce para que algum dia tudo isso seja apenas um sonho ruim do qual finalmente acordamos.