POR QUE EU BORDO? – CYNTHIA

“POR QUE EU BORDO?” é uma série de textos que começa hoje trazendo as respostas de vocês para essa pergunta. Vamos compartilhar a nossa história com essa técnica incrível, e conhecer as histórias de outras bordadeiras – profissionais ou amadoras. Para participar, envie sua resposta para querobordadologia@gmail.com, escrito POR QUE EU BORDO? no assunto. Teremos texto novo quinzenalmente, sempre às terças feiras.

Vamos lá? Hoje é o dia da Cynthia contar a história dela :)

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“Desde pequena sou alucinadamente apaixonada por tecidos e linhas e botões, rendas, lantejoulas, apliques. Na minha infância moramos na casa da minha avó Catarina, mãe da minha mãe, e aquela era uma casa de ‘mulheres mágicas’, fazedoras de ‘maravilhosidades’. Se hoje me dedico às artes manuais, é porque aprendi muito e me inspiro em cada uma delas, e sinto imenso amor e orgulho por isso.

Tia Lelê era uma costureirinha magrinha que pedalava a sua máquina o dia todo e conversava com ela, brigava e fazia as pazes. Na minha cabeça a máquina respondia com a sua voz de máquina e daquele bate-boca eu via nascer vestidos de festa que faziam disparar o meu coração. Terezinha ‘sofria do coração’, então algumas vezes ficava muito cansada e durante as pausas me deixava experimentar os vestidos, e eu, ali, na frente do espelho, criava estórias que anos depois me fariam escolher o teatro como caminho de vida.

Tia Dedé trabalhava na “Loja dos Enfeites”, especializada em materiais para festas, e ela muitas vezes levava trabalho pra casa, para um extra, e montava, ali, na mesa da sala, cenários completos – um campo de futebol com seu jogadorzinhos, uma cidadezinha com casinhas e árvores e sua população minúscula – tudo isso, pra uma criança, olha, não pode haver nada mais encantador do que isso, ver um pedaço isopor se transformar em um castelo todo de purpurina, meu Deus! Me lembro de assistirmos juntas a novela ‘Saramandaia’, enquanto ela fazia roupinhas de papel crepom para bonequinhos que cabiam na palma da minha mão e o realismo fantástico da trama, ele estava ali, era tudo tão encantado quanto aquela estória na tv e aqueles personagens.

E minha avó Catarina, minha nona, benzedeira que curava quebranto e qualquer outra coisa que fosse, com um ramo de arruda em uma mão e um terço na outra. Ela rezava baixinho, e as pessoas que chegavam tristes, saiam de lá sorrindo. Eu não desgrudava dela, a bruxa mais linda do universo, cozinheira da comida mais cheirosa desse mundo, contadora de mil estórias. Uma crocheteira que, nossa senhora, o talento, eram colchas e colchas de ‘quadradrinhos’ todos perfeitos. Ela também costurava, e naquela época já customizava vestidos a partir de outros vestidos e retalhos, e olha, foi uma das mulheres mais elegantes que conheci nessa vida. Todo vestido dela tinha esse toque pessoal, um retalho diferente aqui, uma barra ali, uma gola de crochê, um bordado…

Não havia nada que não se transformasse em algo muito lindo pelas mãos daquelas três. Minha mãe estava sempre muito ocupada com os serviços da casa, um marido bruto e duas filhas pequenas, mas mesmo assim também bordava, fazia casinhas de abelha e moranguinhos, vestidos lindos que eu queria tanto que tivessem sido guardados, mas as roupas passavam de primas para primas e dessas peças temos poucas fotos e memória.

Então sempre me foi muito caro isso, transformar tudo (as roupas, as palavras, as ações, as relações, a vida) em algo único, só seu. Aprendi a bordar cedo, Tia Dedé sempre riscava o tecido e eu ia, pacientemente, passando ponto a ponto. O dinheiro era sempre curto, então aprendi que nada se desperdiça, daí hoje eu ainda guardar cada fio em vidros e depois usar como enchimento. Os retalhos sempre foram preciosos, por menores que fossem. Minha avó fazia fuxicos, colchas de fuxico, e também de patchwork, que naquele tempo se chamavam colchas de retalho mesmo. Cortar, medir, unir, costurar, ver o padrão que vai surgindo desse casamento de pequenos pedaços de pano, emociona, e sinto que na verdade nunca deixei de ser a menina que se encantava com cada nova peça que via nascer, e acompanhava  deslumbrada, cada momento do processo.

Sabe, sinto que quem borda é essa menina, a criança que (aleluia) nunca deixei de ser. Quem fica sempre louca de felicidade e saltitante dentro das lojas de tecidos e linhas, quem escolhe os desenhos e sente uma alegria explosiva com cada bordado finalizado, quem grita com lantejoulas e acha purpurina a coisa mais linda do mundo e mantem os armários sempre abarrotados de todo tipo de material mesmo que seja coisa demais mas no fundo a gente sempre acha que precisamos disso e daquilo porque sim, é tudo tão lindo? É a Cynthia que cresceu na casa da Vovó Catarina, junto da Tia Lelê e da Tia Dedé.

Elas cantavam o tempo todo e eu cresci com a certeza de que cantar é um benzimento poderoso, que ajuda a criar um ambiente poderoso e preencher os vazios desse mundo.  E enquanto bordo, algumas vezes, fecho os olhos e escuto Tia Lelê cantando Tim Maia, ‘e e ê eu, gostava tanto de você ê, gostava tanto de você…’ – ela morreu muito cedo, dona do coração mais lindo do mundo e sim, meu tema preferido é ele, o coração, sempre bordado, pra ela e por ela. Vovó também já está bordando nuvens, e lá de cima canta pra gente ‘a deusa da minha rua, tem os olhos onde a lua, costuma se embriagar…’

Peço a benção, minhas queridas, peço a benção, e honro cada uma de vocês, hoje, com as minhas linhas.

Cynthia Paulino, atriz e diretora de Teatro. Bordadeira, costureira. E benzedeira também.”

(para conhecer os trabalhos da Cynthia, clique nos dois links alaranjados acima).

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