VACINA, PANDEMIA NO BRASIL, BORDADO: UM RELATO

Meu nome é Lísia Maria e moro no Brasil. Desde sempre, e durante toda a pandemia de Covid-19.

Acho que muitos livros ainda serão escritos sobre isso, e muitas histórias serão contadas através das próximas gerações; mas eu posso adiantar o assunto e resumir em uma frase: ser brasileira durante uma situação grave como a de uma pandemia é uma experiência MUITO LOUCA.

Para você que está lendo esse texto, com certeza isso não é nenhuma novidade, então nem vou me estender em todas as situações estapafúrdias a que estamos submetidas nestes últimos 16 meses: desgoverno, desinformação, negacionismo, vacinoduto, economia destruída… Mas o que eu gostaria de dividir aqui com você são duas coisas: a experiência de ser vacinada; e como traduzi na forma de um trabalho bordado toda a minha perplexidade com a naturalização das mortes causadas pela Covid-19 e pela negligência dos nossos governantes em relação a ela.

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Fui vacinada com a Janssen, dia 16/07/21. Depois de muita espera e frustração – como muita gente -, tive a sorte de ser chamada bem no dia em que uma sobra desse imunizante foi distribuída na minha cidade (Belo Horizonte – MG). Teria tomado, feliz e agradecida, qualquer um que estivesse disponível, pois todas são seguras, e eficazes em impedir internações e morte.

E me sinto exatamente assim: feliz e agradecida – e ainda meio boba, com a ficha caindo, de quem em breve (14 dias a partir do dia que vacinei) poderei retomar parte das minhas atividades profissionais, rever alguns amigos que já se vacinaram também, visitar meus pais e sogros com mais tranquilidade, andar pela cidade um pouco menos preocupada: vai dar para viver mais.

Quando sua vez chegar, vacine-se.

E siga usando máscara, e evitando aglomerações, em especial nos espaços fechados. Com as novas variantes do Corona Vírus circulando por aí, só a vacina não vai dar conta de vencer a pandemia: nossa colaboração é imprescindível!

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Em 19/03/21 completou um ano que me isolei em casa – privilgiada – e passei a trabalhar, falar com amigos e familiares, estudar, e até namorar, remotamente. O namoro até que passou a ser presencial em meados de setembro, quando eu e Léo juntamos as escovas, mas o resto permaneceu na distância (com exceção dos meus pais).

Em março/abril de 2021 vivemos um dos piores períodos da pandemia no Brasil, e o número de mortos subiu vertiginosamente – agora, em julho, o número diminuiu, mas permanece absurdamente normalizado na casa do milhar. O número total de vítimas também é ridiculamente gigante: hoje, enquanto escrevo esse texto, são 542.756 vidas perdidas – fora a quantidade de pessoas impactadas pois ficaram orfãs, ou desamparadas, ou desempregadas, ou traumatizadas e deprimidas por passarem por toda essa experiência de perdas e luto.

Então neste “aniversário de pandemia”, comecei a bordar um trabalho, para dar um pouco de fluxo à minha angústia em assistir tudo isso – e na esperança que esse trabalho possa, também, sensibilizar mais pessoas para o tamanho da tragédia que vivemos como povo. A contagem das mortes não parava de subir, e os números me deixavam muito chocada. Quando escutei “1.970 vítimas”, o saldo de um único dia, esse número martelou e martelou na minha cabeça e pensei que esse, e outros números inacreditáveis (chegamos a 4.249 pessoas mortas em 24 horas!!!!!!!!!!!!!!!!!) precisavam ser eternizados, para que não se diluíssem no rolo compressor das notícias cotidianas.

O trabalho “NÃO VAI CABER TANTA 3X4 NA CAPA DA REVISTA” consiste em bordar, diariamente, o número de vidas perdidas. E, a cada mês fechado, o número total até então.

Deste primeiro trabalho surgiu um segundo, “A SUBNOTIFICAÇÃO” que trata especificamente do abismo das mortes não contabilizadas.

Enquanto negacionistas tentam relativizar a gravidade desta pandemia, alegando que “o número é mais baixo, tudo se conta como Covid-19”, a verdade é que não existem nem testes suficientes, nem uma organização federal para a condução dos trabalhos, e isso impacta o o registro real, que com certeza está muito, muito acima do oficializado. Assim, o avesso embaralhado, inexato, representa o que seria a realidade dessa subnotificação.

Eu gosto que o segundo trabalho é o avesso do primeiro, e vai avançando conforme o outro vai sendo feito – exatamente como na pandemia, para cada morte registrada corretamente existe, pelo menos, mais uma sem registro, ou informada como outra doença.

Minha ideia é bordar os dois trabalhos até 19/03/22. Até lá, ou a pandemia será controlada (o que eu espero), ou acabará o espaço no meu tecido.

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Os textos da categoria “A VIDA DA LÍSIA” são mais pessoais. Eles podem falar de bordado livre, afinal sou uma bordadeira :) mas não necessariamente ;) A ideia é compartilhar um pouco mais além das informações sobre bordado – a gente faz isso nas redes sociais né? Mostra um pouco da “vida real” da marca… Por aqui pretendo mostrar um pouco da pessoa de carne e osso por trás da professora/artista :)

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