HISTÓRIA SENTIMENTAL DO BORDADO

BORDAR É: ornamentar com desenhos feitos com agulha (segundo os dicionários).

Este era o começo de um texto que ia tentar reunir informações sobre os primeiros bordados e um pouco da sua história. Mas daí o olho relê, a cabeça pensa e um grande suspiro é dado.

Bordar é ornamentar com desenhos feitos com agulha: quanta história cabe nessa frase.

Desde as mulheres da Grécia Antiga até as descoladas bordadeiras de hoje, quantas histórias individuais foram escritas em paralelo à agulha que sobre e desce.

Bordados que fizeram parte da vida de alguém, que bordou ou ganhou uma peça que se manteve na família atravessando gerações.

Quantas mulheres não tiraram desse ofício o seu sustento, sobrevivendo numa sociedade quase sempre injusta com elas.

Histórias coletivas que foram registradas com esses pontos insistentes, e hoje estão guardadas nos museus do mundo, silenciosamente esperando o nosso olhar.

Quanto sentimento de espera e expectativa de uma vida perfeita não foi deixado em cada enxoval bordado (interessante pensar que as separações, inevitáveis, nunca eram registradas, nunca houve um “enxoval de divorciada”).

Mulheres que tiveram sua criatividade externada através dos panos de prato decorados pacientemente, já que, para nós mulheres, durante muito tempo, ser artista era proibido, assim como ver certas peças, ouvir certas músicas, ler certos livros.

E quantas outras não tiveram seu gênio domado à força pelo bordado que eram obrigadas a fazer, encolhidas pela ditadura de um avesso perfeito e de um ofício que forçosamente ocupava o tempo e as ideias.

Histórias de luta bordadas por guerreiras que escolheram as agulhas para registrar e denunciar as injustiças cometidas em seus países, contra seus filhos, contra elas mesmas, contra suas ideias e posturas políticas.

Quanta vida não passou por cada ponto.

Bordar é ornamentar a própria vida com desenhos feitos com agulha.

As peças bordadas são dadas de presente, vendidas, distribuídas; mas carregam consigo um pedaço do tempo de vida da bordadeira, um pedaço de tanta coisa que ela pensou ou sentiu enquanto a agulha trabalhava.

Essa história sentimental do bordado não está escrita em nenhum lugar, assim como está em todos, basta ver o gesto entre cada ponto.

Fernando Pessoa, em seu Livro do Desassossego: “Viver é fazer meia com uma intenção dos outros. Mas, ao fazê-la, o pensamento é livre, e todos os príncipes encantados podem passear nos seus parques entre mergulho e mergulho da agulha de marfim com bico reverso. Croché das coisas… Intervalo… Nada…”

(neste fragmento  o autor fala do crochê, mas é uma alusão ao trabalho manual doméstico das mulheres, que, na sua época, ainda eram confinadas à vida familiar, quase alheias ao mundo externo).

Era para ter sido um texto quase técnico, com informações destinadas a aumentar o conhecimento sobre esse assunto tão cheio de história, mas felizmente esta frase nos atravessou e nos desviou para o caminho certo: antes de pensar com a cabeça, bora pensar com o coração.

Cada vez que você tiver em mãos uma peça bordada, tente escutar essa história secreta.

Bordar é ornamentar a própria vida com desenhos feitos com agulha.

Lísia Maria / Setembro de 2017.

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